Pão & Vinho

Aprendendo o Passado, Entendendo o Presente, Discernindo o Futuro

Quem pode batizar nas águas?

Recentemente fui indagado por alguns discípulos de uma igreja simples em SP quanto ao que fazer quando novas pessoas no grupo se convertem e precisam ser batizadas. Há uma preocupação natural, principalmente entre os que já passaram pelas instituições religiosas, quanto a quem pode batizar nas águas e se eles mesmos tem autoridade para batizar estes discípulos.

Esta é uma questão interessante, porque o Senhor nos mandou fazer discípulos em todas as nações e batizá-los (Mateus 28:16-20), mas curiosamente “se esqueceu” de criar um estatuto especificando quem poderia exercer a função de batizar os discípulos. E os homens, aproveitando-se deste vácuo, criaram então os seus próprios estatutos para regulamentar a questão. E parece haver um consenso entre as diversas cidadelas eclesiásticas de que somente o clero tem autoridade para batizar.

Batizar, de fato, não é para qualquer um. Porém, nas Escrituras, o privilégio de batizar um discípulo nas águas não tem absolutamente nada a ver com títulos ou patentes eclesiásticas.

Seria surreal pensar que somente doze apóstolos se encarregariam de batizar as quase 3000 almas que em um só dia se converteram em Jerusalém nos eventos registrados em Atos 2. Razoável pensar que os apóstolos contaram com a ajuda daqueles poucos mais de 100 discípulos que os acompanhavam naquele instante.

Isso parece fazer sentido quando observamos que Paulo, após ter seu dramático encontro com o Senhor à caminho de Damasco, foi batizado por um simples discípulo chamado Ananias (Atos 9:10-18). Não há menção de que Ananias fosse um presbítero em Damasco. Da mesma maneira vemos Felipe, que não era presbítero, “somente” um diácono (Atos 6:5) –  função que em algumas denominações não é reconhecida como “ministerial” ou “clerical” – descer à Samaria para prega Reino e batizar. Mais tarde, ele batizou também o eunuco no caminho de Jerusalém à Gaza (Atos 8:12-13, 38).

Portanto, batizar nas águas não depende de “ofício”, mas sim da concessão de paternidade espiritual a quem o Senhor entrega uma alma para pregar, cuidar e ensinar.

Levantado por Deus, desautorizado pelos homens

Houve um tempo em que cooperava com uns irmãos de transfundo institucional que estavam interessados em buscar uma expressão mais orgânica de igreja. Neste tempo, fui enviado pelos líderes locais a uma comunidade de indígenas guatemaltecos para ajudar no batismo de um grupo de novos convertidos. Esta comunidade começou quando um homem simples, também de origem indígena, começou a ser usado no dom de cura, mediante a oração em nome do Senhor. Quando cheguei no lago onde seriam realizados os batismos, surpreendi-me ao saber que não estava lá para ajudar este irmão nos batismos, mas que estava lá para realizar os batismos (!!!). A razão era que este homem, que havia ganhado quase todas aquelas pessoas para Cristo, não se julgava apto para batizar porque não era um “ministro ordenado” (ironicamente, este homem não sabia que muito embora eu era reconhecido como um obreiro na região, tampouco havia sido “ordenado” nos moldes denominacionais).

Tentei convencer este homem a entrar nas águas comigo e batizar seus filhos na fé, mas ele se recusou. Após muito insistir e argumentar, percebi que deveria respeitar sua decisão para não causar um desconforto nele e, principalmente, em alguns de seus superiores mais conservadores na hierarquia eclesiástica. Experimentei o contraste de alegremente batizar aqueles pequeninos, porém com a tristeza de ver este irmão esperando seus filhos na fé com uma toalha à beira do lago. Levantado por Deus e desautorizado pelos homens …

Há 500 anos atrás, os anabatistas davam sua vida pelo privilégio de  batizarem uns aos outros. Hoje, em tempos de liberdade religiosa no Ocidente, nosso maior problema parece ser saber quem tem ou não autoridade para batizar nas águas. Mais forte do que a espada do tirano são os paradigmas da tradição religiosa.

Conclusão

Se, em um contexto de Igreja simples, não estamos coagindo as pessoas a se batizarem e se esse é um desejo que parte delas para firmar seu compromisso com o Reino, biblicamente falando, não temos o direito de negar-lhes o batismo. O Novo Testamento nos mostra que “ser discípulo” é o único requisito indispensável para fazer outro discípulo e, portanto, batizá-lo nas águas. Não há nenhum mandamento ou evento bíblico que nos levem a outra conclusão.

Com isso não quero dar a impressão de que basta fazer o candidato a discípulo rezar a “oração do pecador” (uma invenção da Igreja moderna) e depois jogá-lo na piscina. O batismo deve ser resultante da firme e autêntica convicção de pecados do batizando e, no contexto do “Ide” de Mateus 28:16-20 (onde o Mestre nos ordena a batizar), aquele que batiza deve ter uma firme convicção de seu chamado a não somente batizar os novos discípulos, mas a cuidá-los, corrigí-los e orientá-los, ensinando-os a guardar “todas as coisas que vos tenho ordenado.”

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5 Comentários

  1. Amado irmão Hugo, graça e paz!

    Recentemente um amigo próximo foi indagado a respeito do batismo de um novo convertido, se ele poderia ou não ser batizado… a questão é um pouco diferente da proposta no tema mas fala do mesmo sacramento. Aqui, o irmão questionou se esse batismo teria validade porque a pessoa não fez um “curso de batismo”, não foi avaliado mediante critérios que o classificariam como aprovado ou não para ser batizado (é óbvio que bastaria o exemplo do eunuco, de Cornélio e do carcereiro de Filipos para desarmar essa argumentação).

    Mas gostaria de propor um outro tema para reflexão, a respeito do outro sacramento: a ceia. Esse tem sido um ponto de muita polêmica entre os cristãos já convertidos que vêm participar de nossa comunhão (como nominamos as nossas reuniões aqui). A questão é: quem pode ceiar? Somente batizados podem ceiar? Há batizados impedidos de ceiar, mesmo não estando em prática consciente de pecado? (crentes que não discernem o Corpo de Cristo, por exemplo… se é que é possível mensurar isso de algum modo). Crianças que amam o Seu Senhor mas que não foram batizadas, estão impedidas de participar da comunhão do Corpo?

    Falo isso pensando na minha filha caçula, que se batizou neste último fim-de-semana. Ela esperou ansiosamente pelo batismo por 2 longos anos (segundo ela disse), para confirmar com a sua vida sua decisão por Cristo. Posso afirmar seguramente (sem ser pai-coruja) que ela, mesmo aos 9 anos, discerne o Corpo de Cristo muito melhor que muitos cristãos adultos, “velhos na fé”. Ela, mesmo sendo criança, tem muito mais temor-do-Senhor e vive a vida do Espírito muito mais intensamente que muitos desses irmãos, alguns que até “nasceram” no Evangelho (se é que existe isso). Por isso eu nunca tive receio em compartilhar a ceia com as crianças, porque delas é o Reino (mas em discordância com alguns irmãos).

    Se você considerar válido postar algo sobre a ceia aqui, vou deixar contar algumas experiências lá…

    Em Cristo,
    Marcio.

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  2. Hugo, mais uma vez, que Deus te abençoe por todo bem que tem nos feito.

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  3. Márcio, a verdade é que quando a pessoa expressa um forte desejo de ser batizado, não nos compete impedí-la. Curso de batismo é uma invenção da tradição religiosa, não é algo bíblico. Há alguns casos em que eu não ofereço o batismo (não oferecer é diferente de impedir) por coisas que observo na vida das pessoas que não estão alinhadas com o Reino, e estarei falando disso no próximo post. Mas “não oferecer” é diferente de impedir. Quem garante que essa pessoa realmente não teve uma revelação espiritual, finalmente se arrependeu e depois do batismo acertará sua vida? Porque queremos fazer o papel do Espírito Santo e, pela aparência, discernir se tal pessoa está aprovada ou não para o batismo?

    A ceia é um tema interessante e polêmico, porque as Escrituras não são específicas com relação a alguns destes pontos que você levantou… Um outro irmão chamado Márcio também tem me enviado alguns emails perguntando as mesmas coisas… Vou compartilhar alguns pensamentos meus a respeito disso em breve e espero ajudar na questão. Não tenho a pretensão de estabelecer nova doutrina, somente compartilhar experiências.

    Obrigado por sua amizade e participação, Márcio.

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  4. @Marcio:

    Graça e paz Márcio

    Lendo seu comentário a respeito da ceia , quero compartilhar com você nossa experiência a respeito da ceia. Quando estamos reunidos para ceia e, logicamente o Espírito presente com sua marcante e inconfundível presença, vem nos dar a liberdade de agirmos em amor e profunda comunhão. Tenho um neto e uma neta, a garota tem oito anos e também tem um discernimento e temor ao Senhor Jesus. Percebesse que o Espírito também anseia em se relacionar com os pequeninos ,pois outro garoto de sete anos (filho de uma irmã) tem feito orações pelos irmãos (sempre abrimos espaços para que as crianças participem das reuniões) e a forma que esse garoto se dirigi a Deus é maravilhosa… faz de forma tão espontânea que nos emociona. Eles cantam , oram , e porque não poderiam tomar a ceia ? ( então ficariam sem a refeição toda ,pois a mesa aqui é farta…) . Aqui como igreja em Cristo nossas crianças são membros ativos do corpo de cristo, ou estaríamos deixando de cumprir o que Jesus nos ensinou . Acho que tudo sendo feito com ordem e decência, e o Espírito Santo dirigindo a reunião, tudo fluirá em concordância no corpo.

    Abraços.

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  5. Estou de acordo com vocês, Márcio e Cristina. Que lindo ver que em diferentes partes do Brasil, como o Márcio no PR e a Cristina em SP, estamos tendo o mesmo sentir. Deus está fazendo algo tremendo!

    Ecclesia semper reformanda est!

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