Ariovaldo Ramos e Ricardo Bitun sobre os “desigrejados”

Acabei de ouvir o podcast dos Irmaos.com a respeito ao fenômeno que o institucionalismo cristão chama de ‪desigrejados‬. Os pastores Ariovaldo Ramos e Ricardo Bitun tiveram uma postura cautelosa, respeitosa e mais aberta ao abordar o tema. Não vemos as generalizações típicas de alguns pastores e há uma admissão sincera de que a migração para os grupos pequenos é algo de Deus para aqueles que não se encaixam nos moldes institucionais atuais. Há uma distinção clara entre “organismo” e “organização” e que o organismo não depende da organização para viver e operar.

Em alguns pontos, porém, a oratória é um pouco ambígua. Há uma sugestão muito delicada de que tais formas alternativas de se congregar são uma espécie de “Plano B” de Deus, algo aceitável, mas abaixo do ideal, uma espécie de “válvula de escape” para aliviar o sofrimento dos “nômades de Jesus” e que os grupos caseiros que crescerão são aqueles que se “institucionalizarão de forma mínima” (como se o simples fato se ter um compromisso de congregar, ou ter dia e hora marcada para se reunir fosse institucionalizar).

Ao mesmo tempo em que Ariovaldo, por exemplo, diz que grupos caseiros devem congregar os “desigrejados” e criar uma espécie de “auto-regulação” para prestação de contas entre os irmãos, ele diz também que grupos caseiros não crescem muito porque não têm uma veia “evangelística institucional” ou uma “vocação proselitista” (sugerindo que tais pessoas vão somente falar de Jesus, mas não estarão interessadas em chamar os novos convertidos para o “seu grupo” ou formar uma aliança formal com eles). Há momentos em que o discurso apresenta uma dicotomia não existente entre grupos caseiros e “comunidade”, pois descreve tais formas alternativas de se reunir como algo casual, uma espécie de “zona de refúgio” para os decepcionados, um “simulacro de Igreja” que não visa pastorear, discipular e estimular a prestação de contas entre os membros. Assemelha a igreja caseira a uma espécie de fraternidade de “encontros e evangelismos casuais, de pessoas desinteressadas em formar comunidade.”

Embora admita que tais grupos existam e provavelmente abundarão, não penso que isso reflita necessariamente o trabalho de vários grupos e lideranças espalhadas no Brasil que há anos já congregam nas casas, mas que até agora não eram manchete de revista evangélica. Penso que se enfocar nesta expressão de grupos caseiros somente é adotar uma concepção reducionista daquilo que o Espírito Santo visa edificar ao permitir esta migração em nossos dias.

O Plano “A” de Deus

Em primeiro lugar, nunca é demais enfatizar que a expansão exponencial da Comunidade Divina em seu gênesis se deu em um ambiente de grupos domésticos e que o conceito cristão moderno que relaciona o “congregar” e “comunidade” aos grandes ajuntamentos no templo não é o conceito bíblico de comunidade (na Bíblia a Comunidade Divina era fundamentada nos grupos caseiros, na igreja que se reunia na casa de fulano e de sicrano). Valores essenciais de uma comunidade (compartilhar os bens, carregar as cargas e ser submissos uns aos outros) são muito mais propícios a serem implantados em grupos pequenos do que no modelo eclesiástico tradicional. Verdadeiros “igrejados” não são aqueles que frequentam um culto semanal ou se engajam em ativismo religioso entre uma massa de desconhecidos, mas aqueles que encarnam os valores acima na “ecclesiolae in Ecclesia” (pequenas igrejinhas dentro da Igreja na cidade, una, católica e universal). Não penso ser de uma exagerada pretensão afirmar que grupos caseiros não são o Plano B de Deus, mas sim o Plano A, levando em consideração o gênesis da Igreja narrado nas Escrituras.

Problemas Comportamentais x Problemas Estruturais

Em segundo lugar, para discernirmos esta questão apropriadamente, é importante entendermos a diferença entre problemas comportamentais e problemas estruturais que são grandemente responsáveis pela migração eclesiástica.

Para cada déspota megalomaníaco no ministério tradicional, existem 10 ou 20 outros pastores de igrejas institucionais que são sinceros e éticos em suas ações. Dito isso, não penso que esta migração seja somente o resultado de “abusos e deslizes pastorais” (sim, há muitos crentes como o jogador Kaká perambulando por aí, mas eles não representam todos os peregrinos que participam do atual êxodo institucional), ou que toda esta movimentação seja somente uma reação a problemas comportamentais. Grupos caseiros não são somente essa caverna onde os feridos se reúnem para lamber suas feridas, mas sim a maneira como Deus está agindo para restaurar o conceito de bíblico de comunidade que se perdeu na Igreja moderna – o que obviamente inclui o compromisso de pastorear, criar um ambiente de discipulado e prestação de contas entre os membros. Qualquer movimento emergente que não inclua isso em sua proposta é na verdade a antítese do mover do Espírito nos dias atuais.

Conclusão

É pouco produtivo nos limitarmos a falar a respeito de questões comportamentais (das quais nem mesmo os grupos caseiros estão imunes, como a própria Escritura nos ensina). Faremos bem em falar também sobre questões de engenharia eclesiástica, isto é, problemas estruturais, rachaduras nos odres que precisam ser tapadas, de construções históricas que precisam ser reformadas. Somente então estaremos atacando as verdadeiras raízes do problema que aflige uma boa parte daqueles que se identificam como desigrejados.

De qualquer maneira, gostei do podcast e há muita coisa boa a ser retida na mensagem. Há de fato uma humildade e uma lucidez incomuns na análise do fenômeno por parte destes pastores. Foi até o momento a melhor coisa que ouvi a respeito do assunto.

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