Crentes de “Saco Cheio”

Paulo era o membro ideal. Há anos frequentava todos os cultos, era conhecedor das Escrituras, dizimista e ofertante, e tinha testemunho destacado entre os demais membros da Igreja. Até que um dia Paulo desapareceu.

Não, Paulo não é um personagem da série Deixados para Trás. Não foi arrebatado e tampouco passou a frequentar outra igreja. Paulo faz parte de um grupo crescente de ex-membros de igreja conhecidos no Brasil como “desigrejados”.

O fenômeno dos desigrejados – crentes sem igreja – tem sido amplamente debatido por blogueiros e líderes evangélicos nos últimos anos, notado até mesmo pela mídia secular. Não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, mas ocorre também em outros países como os EUA.

Na maioria dos artigos escritos por blogueiros e líderes evangélicos a respeito do tema, o êxodo eclesiástico é atribuído a: 1) apostasia e falta de compromisso com o Evangelho, 2) pessoas feridas pela liderança (falhas morais, abuso de autoridade ou megalomania pastoral) e 3) distorções doutrinárias como a Teologia da Prosperidade.

Sem dúvida, muitos dos que abandonaram suas congregações se encaixariam nos perfis acima. Tais diagnósticos não estão necessariamente equivocados, porém estão longe de resumirem o tema.

Em uma vídeo conferência realizada para o Group Publishing, o sociólogo estadunidense Josh Packard descreveu algumas características adicionais dos “crentes de saco cheio”: 1

  • Não se tratavam de cristãos novos ou descomprometidos com a Igreja.
  • Não abandonaram a igreja por causa de uma má experiência em particular.
  • Não tiveram problemas com um pastor ou um líder em particular.
  • Não estão magoados com nada ou ninguém.
  • São normalmente de classe média e têm nível superior.
  • Não abandonaram a igreja por impulso; pelo contrário, refletiram por muito tempo antes de tomar a decisão de sair.
  • Não perderam sua fé, mas perderam seu interesse pelas coisas relacionadas com a igreja.

Segundo Packard, a razão pela qual estes crentes abandonaram suas congregações é a fadiga espiritual. Após participarem de inúmeros cultos e ouvirem inúmeros sermões, os crentes de saco cheio não encontram mais o seu lugar na igreja. Sentem que anos de caminhada cristã os levaram a um beco sem saída e sem sentido. Eles estão cansados das mesmas rotinas domingueiras, estão desorientados, em busca de um rumo para sua vida espiritual.

Thom Shults em seu livro Why Nobody Wants to Go to Church Anymore (Porque Ninguém Mais quer Ir à Igreja, tradução livre) aponta para o fato de que tal fenômeno representa uma ameaça à sobrevivência da Igreja nos EUA. Os crentes mais comprometidos, assim como Paulo do exemplo acima, estão desaparecendo das igrejas e os jovens da geração Y (ou Millenials), por sua vez,  não estão necessariamente fazendo fila para preencher os assentos vazios.

Diante de tal quadro, algumas perguntas para nossa reflexão seriam:

  • Que ajustes deveriam ser feitos para evitar o êxodo eclesiástico?
  • É possível alcançar estes ex-membros e trazê-los de volta? Como?

A resposta para estas perguntas é a chave para a existência da Igreja nas próximas décadas.

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NOTAS:

  1. Josh Packard. Who are the Dones?. Group Publishing. 15 de abril de 2015. Webinar publicado no Facebook por James Paul. Disponível em http://goo.gl/8WRe8O.
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