Da glória ao declínio – os altos e baixos da Igreja cristã

Por Jaime C. Jardine: 1

A seguir, um resumo de algumas das principais crenças e práticas que caracterizavam as igrejas apostólicas:

  1. Reuniam-se unicamente em Nome de Cristo.

  2. Exerciam autonomia administrativa, com laços calorosos de amor fratemal entre as igrejas.

  3. Eram governadas por anciãos (presbíteros), também chamados bispos (superintendentes), sempre na pluralidade.

  4. Eram ensinadas por Mestres que de Deus tinham recebido este dom e eram levantados pelo Espírito Santo dentro destas mesmas igrejas. Recebiam ajuda de irmãos visitantes que possuiam este mesmo dom.

  5. Celebravam a ceia do Senhor todos os primeiros dias da semana. Era uma simples refeição de pão e vinho, que simbolizavam o corpo do Senhor Jesus Cristo e o Seu sangue derramado. O Domingo era também o dia quando as igrejas levantavam as ofertas (recolhidas apenas dos crentes!) para a obra do Senhor.

  6. Baptizavam os crentes verdadeiros, não crianças, nem gente em massa, sem compreensão do Evangelho verdadeiro.

  7. Pregavam o Evangelho puro da justificação pela fé, baseada unicamente na morte expiatória do Senhor Jesus.

Declínio e abandono do padrão neotestamentário

Aconteceu tão cedo! Não devemos, porém, surpreender-nos com estes factos, pois no próprio Novo Testamento já vemos o indício de que isto iria acontecer.

  1. Distinção entre “clérigo” e “leigo”:
    É interessante notar que nas cartas de Clemente aos Coríntios (c. 96 d.C.) e no livrinho chamado Didaquê (começo do século II) ainda são mencionados somente bispos e diáconos (no plural), como em Filipenses 1.1. Já havia, porém, a tendência antibíblica de fazer nítida distinção entre os bispos (anciãos) e os demais crentes. Os bispos eram chamados “clerigos” (os que receberam ordens sacras), enquanto os demais crentes eram chamados “leigos” (do povo). Uma triste distinção que continua na maioria das “igrejas” até hoje.

  2. Distinção feita entre “o bispo” e os “presbíteros”, sendo dada ao bispo a preeminência na Igreja:
    Traçamos este declínio através das cartas de Inácio de Antioquia, um conhecido do apóstolo João. Ele foi condenado à morte pelo imperador Trajano, no ano 110 d. C.. A sentença foi cumprida em Roma e durante a viagem para lá Inácio escreveu várias cartas para as igrejas que visitara no caminho. Em todas ele exalta o bispo da igreja e exorta à obediência total ao mesmo. Um exemplo disto temos na carta por ele enviada à igreja de Filadélfia:

“Tende cuidado, portanto, em observar a eucaristia … há um altar, como há um só bispo, juntamente com os presbíteros e diáconos”.

Deve ser dito que Inácio era um irmão fiel que enfrentou a morte pelas feras em Roma com coragem exemplar. É uma ilustração de como irmãos bons e fiéis, apesar de sua sinceridade, estão sujeitos a ensinar coisas erradas!

  1. Organização das Igrejas fora do nível local:
    Do século III em diante os bispos das igrejas das cidades maiores reivindicaram autoridade sobre os bispos das igrejas menores. Pela “lógica” o bispo de Roma (a capital do Império) tomou a precedência, assim formando a base para o sistema papal que vigora até hoje. A interferência nos assuntos internos de outra igreja local, por mais bem intencionada que seja, por parte dos anciãos duma igreja local vizinha ou por parte de obreiros, nunca traz resultados espiritualmente positivos, pois viola os direitos d’Aquele que ainda “anda no meio dos … candeeiros de ouro” (Ap 2.1).

  2. Outros desvios da verdade:
    a) A reverência aos mártires, da qual resultou a criação dos “santos” (século II em diante).
    b) O “baptismo” de bebés, introduzido nos séculos II e III, tomou-se geral nos séculos IV e V.
    c) Deturpação do Evangelho. Os filhos dos crentes, por causa dos pais, receberam o privilégio especial de serem também considerados membros da “igreja”. A pregação da salvação pelas obras, tão combatida por Paulo nas cartas aos Romanos e aos Gálatas, tomou-se comum.

  3. O desastre maior – a fusão da Igreja com o Estado:
    Esta fusão aconteceu como resultado da suposta conversão do Imperador Constantino, o Grande (273-334 d.C.)… Gene Edwards diz que “Constantino deve ser considerado o primeiro cristão medieval— 90% cristão de nome e 90% pagão em pensamento”. Visto que era Imperador e mandava em tudo, logicamente quis mandar na igreja… A igreja exterior e visível fez toda sorte de concessão a fim de cativar o povo. Passou a adoptar festas pagãs e deuses pagãos, dando-lhes nomes cristãos. A estátua de Pedro em Roma, originalmente era de Júpiter! Uma Vénus ou uma Minerva facilmente transformaram-se na Virgem Maria. O que faltava em realidade espiritual no culto tentava-se suprir com música, cerimonialismo e ostentação.

NOTAS:

  1. Originalmente publicado em Irmaos.net sob o título “A Igreja Peregrina“. Acesso em 15 de setembro, 2014.
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