Eis o Homem

ecce hommo

A pintura à direita se chama(va) Ecce Homo (Eis o Homem) de Elias Garcia Martinez. Por mais de um século, a pintura foi o orgulho da Igreja Santuário da Misericórdia nas proximidades de Zaragoza, Espanha. Com o tempo, a pintura se desgastou por causa da umidade nas paredes da basílica e Cecilia Giménez, uma fiel de 80 anos de idade, resolveu dar uma ajudazinha na restauração. O resultado final é o que se vê na foto à direita.

Analisando a História da Igreja – incluindo os capítulos que estamos escrevendo hoje – constato com tristeza que este é o nosso cliclo vicioso. Percebemos que há algo errado na imagem de Cristo na terra – que é a sua Igreja. Tentamos restaurar algo que se perdeu e as vezes nos falta habilidade para traçar as linhas, combinar as cores de maneira eficiente, e a sensibilidade para saber quando pressionar o pincel e quando escorregá-lo de forma mais leve sobre a lona. Os resultados são catastróficos.

Por alguma razão, às vezes nos custa encontrar um ponto de equilíbrio enquanto “pintamos”. Muitos de nós vemos o desgaste na “pintura”, queremos mudança, queremos melhora, mas tudo o que conseguimos fazer às vezes é deformar ainda mais a imagem de Cristo. Podemos sair do extremo do institucionalismo e cairmos no outro extremo da informalidade, da “igreja” casual, das vãs conversas de Starbucks. Sair do extremo de uma mensagem legalista que só prega o fogo do inferno aos pecadores, para cair no extremo do evangelho “água com açucar” de um deus hippie, um velho gagá “paz e amor”, que não confronta pecados ou prega arrependimento. Sair do fundamentalismo bíblico literalista para cair no liberalismo teológico que mina nossa confiança na Palavra de Deus. Sair do extremo da “carismanía”, dos retetés, dos modismos e exageros pentecostais, para cair no extremo do cessacionismo e seu intelectualismo estéril que nega o poder de Deus. Sair da salvação pelas obras para cair no extremo da graça barata, e assim por diante. Sempre trafegando pelos extremos. Ecce hommo – assim é o homem.

Sou otimista, no entanto, quanto aos tempos em que vivemos. Estou confiante no fato de que Deus, em sua divina soberania, avançará com os marcos da Reforma e providenciará um legado para as gerações posteriores. No entanto, não pelos méritos da carne e do sangue. Todos nós corremos o risco de, a exemplo desta octogenária, superestimar nossas habilidades, seja por nossa idade, seja por nossas experiências passadas, por nosso intelecto, nosso conhecimento, pelo carisma que temos com as pessoas, ou pelos dons espirituais que possuímos. Todos corremos o risco de apertar o pincel demais ou afrouxá-lo demais, combinar as cores de maneira equivocada e criar traços toscos e inábeis que venham a estragar a pintura.

Que o Senhor nos ajude a caminhar em equilíbrio, no poder de nossa vulnerabilidade e dependência daquele que sabe pintar como ninguém mais.

Soli Deo Gloria.

© Pão & Vinho - Alguns direitos reservados.
Pode ser republicado, parcial ou integralmente, desde que o conteúdo não seja alterado. É expressamente vedado o uso comercial desta ou qualquer outra obra de propriedade intelectual do autor.
Licença Creative Commons
Posted in Mensagens and tagged , , .