Intercâmbio de Graça

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Que fareis pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. E, se alguém falar em língua desconhecida, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e por sua vez, e haja intérprete. Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus. E falem dois ou três profetas, e os outros julguem. Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro. Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados. E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas. | Paulo de Tarso (I Corintios 14:26-32).

As Escrituras nos mostram que as reuniões da Igreja neotestamentária eram abertas e participativas. O ensinamento apostólico não aponta para a experiência individual, mas ressalta o intercâmbio espiritual entre os membros do Corpo de Cristo. Paulo instruiu os corintios a congregar não somente para receber algo bom em seus espíritos, mas também para contribuir com algo para a edificação do grupo, de acordo ao dom de cada um – semelhante a um grande banquete em família em cada um traz um prato diferente, compartilham o que têm, ao mesmo tempo em que se alimentam das guloseimas que os outros trouxeram. Todos os membros contribuem para a edificação do Corpo de Cristo, pois um “um traz salmo, outro traz doutrina, outro traz revelação, outro traz línguas e outro traz interpretação” (v. 26).

Graça e Dom Espiritual

Muitos dons espirituais e ministérios estão adormecidos e suprimidos entre nós e parte do problema se dá por conta de uma teologia que cirurgicamente separou a Graça de Deus dos dons espirituais – o que tem produzido uma safra de crentes intelectualmente salvos mas letárgicos na prática. Desde a Reforma, fala-se muito no meio protestante sobre a graça como um “favor imerecido” que Deus concede para nos salvar, ou seja, algo que Deus fez por nós. Entretanto, fora dos círiculos pentecostais, pouco se fala da graça como algo que Deus fez em nós para nos santificar e capacitar para a obra do ministério por meio dos dons espirituais.

Mas se disséssemos a um irmão da Igreja neotestamentária que temos a Graça (χαρις = caris) mas não temos Dom (χαριςμα = carisma), certamente ele nos perguntaria: “Como assim, vc tem água, mas não tem gelo?”. A graça e o dom têm a mesma substância, o que muda é somente a forma. Não há como termos uma coisa e não termos a outra, do mesmo modo em que é impossível ter fogo sem experimentar calor, pois uma coisa deriva da outra.

Graça não é somente aquilo que Deus fez por nós, mas também aquilo que ele faz em nós. Assim, todo membro do Corpo de Cristo possui um carisma especial para contribuir no processo de Intercâmbio de Graça, para a edificação da Igreja como um todo.

Contrastes com a Igreja moderna

É muito comum escutar das pessoas que elas vão a um culto para “se alimentar da Palavra”. Mas sermões de 50 minutos em que um único homem se dirige a uma audiência passiva não eram a regra na Igreja neotestamentária.

Obviamente, o ensino é um componente importantíssimo da vida em Igreja, mas este deve se dar em um contexto flexível em que o Espírito Santo tenha liberdade para soberanamente conduzir cada membro do Corpo de Cristo ao exercício de seu sacerdócio, segundo seu dom, para a edificação de seu próximo.

Anos de tradição nos condicionaram a frequentar um programa semanal na intenção única de receber um “bem de consumo espiritual” – uma cura, uma pregação, uma massagem intelectual, um louvor, um momento de êxtase espiritual, uma profecia, etc – mas não para contribuir com algo no ajuntamento (com excessão da contribuição financeira). Um mandamento subliminar em nossas reuniões, não escrito em nossos boletins mas marcado em nossos corações, é “venha, pague e ouça (em silêncio).”

Em contraste com os ensinamentos de Paulo, a interação entre os membros durante nossas reuniões é nula e desencorajada, vista como um desrespeito aos atos solenes da liturgia. Embora nos reunamos em grandes números aos domingos, as pessoas se congregam para ter uma experiência puramente individual (ao invés da experiência comunal descrita na passagem acima). Ao invés de um banquete em família, nossa experiência de “alimento espiritual” assemelha-se mais a de um restaurante “fast food” – um local cheio de pessoas mas com pouca ou nenhuma interação entre elas.

Conclusão

Rígidas liturgias são uma alternativa humana em tempos de estiagem espiritual, quando a espontaneidade carismática é rara. Neste contexto de estiagem, muitos obreiros sinceros são tentados a preencher o vácuo do Espírito com seus próprios dons e talentos, e muitos ministérios são edificados ao redor do carisma de um único homem. O resultado disso é que a ausência do pastor acaba sendo mais sentida do que a ausência do Espírito entre crentes letárgicos que simplesmente não sabem o que fazer sem um “mestre de cerimônias” que os conduza.

Nosso grande desafio no século XXI é devolver a Igreja ao seu verdadeiro Dono e permitir que Cristo seja de fato o Cabeça da Igreja, não somente teologicamente, mas na prática. Ao contrário do que muitos pensam, odres velhos não são estruturas eclesiásticas. Odres velhos são sofismas, paradigmas e fortalezas mentais que obstruem o mover do Espírito. Odres novos são corações transformados pela renovação de nosso entendimento (Rom 12:2). Os odres novos em que Deus quer derramar seu vinho novo são nossos corações renovados. É de nosso entendimento (revelação) que toda estrutura eclesiástica deriva, seja ela boa ou ruim.

Que Deus nos dê “espírito de sabedoria e revelação e ilumine os olhos de nosso entendimento” (Ef 1:17) para que assim experimentemos “intercâmbio de graça.”

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