Neófitos no ministério

Há exatas 6 semanas atrás, decidi tirar todas as boias de meu filho de 5 anos e ensiná-lo a nadar de verdade. A mãe quase teve um ataque cardíaco. No começo ele tinha medo, porque no verão passado ele foi fazer uma travessura, engoliu um pouco de água (com boia e tudo) e depois “traumou”. Não queria mais colocar a cabeça dentro da água. Com calma, eu tirei a boia, ensinei ele a boiar com seu corpo (para poder se “safar” da água naturalmente), depois inventei umas brincadeiras e ensinei ele a colocar a cabeça na água e prender a respiração. Então ensinei ele a nadar estilo “cachorrinho”. Bem, já no final do verão (aqui na Califórnia), ele joga os ósculos de natação na parte mais funda da piscina (2 metros) e mergulha para pegar. Criança é assim. Aprende as coisas bem rápido. Se antes ele tinha medo, agora quando vejo ele fazendo certas coisas na água quem tem um “medinho” sou eu… :)

Mas eu estou dizendo tudo isso para chegar ao seguinte ponto: na Igreja, o princípio é o mesmo. Vejo que as pessoas mais brilhantes e frutífiras no ministério tiveram suas “boias” retiradas desde cedo. Foram expostas ao evangelismo, à intercessão, à profecia e aos demais dons espirituais e tiveram uma certa liberdade para fluir, sem impedimento. Nessa “idade”, as “crianças espirituais” ainda não foram contaminadas pelo medo e pela incredulidade. Não possuem as travas psicológicas do crente velho. Precisamos valorizar isso na Comunhão. Sim, às vezes um “acidente” pode acontecer (como no caso do meu filho que tragou água), porque Pentecoste tem fermento (quem lê entenda), há carne, há erros. Mas a solução para os erros não é suprimir o dom natural do neófito, é cuidado pastoral. E cuidado pastoral não é controle, é ficar ao lado da piscina observando o “neófito” aprender a “nadar” de forma natural. É dar-lhe o benefício da “liberdade assistida” até que possa se virar sozinho.

Como as pessoas confundem ministério (que é universal) com presbitério, as pessoas mal interpretam as palavras de Paulo em 1 Timóteo 3:6 – quando na verdade Paulo se refere ao episcopado, especificamente, não ao dom natural que se manifesta muitas vezes já no gênesis da caminhada cristã (no NT, nem todos são presbíteros, mas todos são sacerdotes). Então, colocamos o neófito para assistir, até que “já esteja maduro”, sem entendermos que, porque condicionamos o discípulo a “assistir” somente, ele dificilmente amadurecerá.

Forçar um neófito a ficar “no banco de reservas” é condicioná-lo a ser um neófito para o resto de sua vida. Não dá para exigir que um pássaro levante vôo se nós mesmos, com nossas tradições, estamos cortando-lhe as asas. Há muitos dons e ministérios sendo abortados na Igreja pelo excesso de zelo e “impaciência” pastoral. É necessário “tirar as boias” e soltar os filhos de Deus. De outra maneira, seus instintos espirituais estarão eternamente adormecidos.

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