No caminho de Emaús

QUANDO PENSAMOS EM EVANGELISMO, que imagem passa pela nossa cabeça?

emausCertamente, muitos enxergam um pregador atrás de um púlpito, fazendo o tão famoso “apelo” diante de uma numerosa multidão. Outros imaginam um grupo de crentes pregando o Evangelho nas praças e nas “bocas de fumo”, desafiando as pessoas a “aceitarem a Jesus.”

Principalmente após Charles Finney (1792 – 1875), este estilo de evangelismo se popularizou muito entre os evangélicos. Pregar às multidões não é incorreto, pois foi exatamente isso o que fez Pedro após ser cheio do Espírito Santo em Atos 2, o que causou uma resposta imediata de mais de 3000 pessoas no mesmo dia (!!!).

No púlpito ou nas praças, certamente o importante é que a Mensagem esteja sendo pregada. Mas devemos entender que este tipo de kerigma não pode ser visto como a única forma de evangelismo. Há muitos anos aprendi, e já escrevi anteriormente, que discípulo não é como bolo, que você segue uma receita uniforme, coloca no forno e depois de “40 minutos” já está pronto. Cada pessoa tem um passo diferente. Diante da mensagem do Reino, há pessoas que nascem por “cesária” (rapidamente). Outras nascem por “parto normal” – que pode levar algumas horas, às vezes dias, por meio de muito suor, muita dor e muito sofrimento. Para os dois tipos de pessoas, a Mensagem é sempre a mesma, mas nossa abordagem deve ser diferente.

Quem semeia à beira do Caminho há mais tempo pode testemunhar que nem sempre as conversões serão imediatas como em Atos 2. No campo missionário, principalmemente, muitas vezes demora-se meses e até anos até que o primeiro discípulo passe pelas águas. Diante de casos assim, não podemos desanimar ou dar-nos por fracassados. Para estas situações, há um segundo tipo de kerigma que particularmente chamo de “caminho de Emaús” (Lucas 24:13-33).

O caminho de Emaús é um processo de evangelismo mais contínuo, que se propõe a apresentar Cristo começando “por Moisés e todos os profetas”, ensinando “o que consta a respeito dele em todas as Escrituras” (v. 27). Este é um processo mais demorado do que expor as famosas Quatro Leis Espirituais e fazer um apelo.

Um tipo de kerigma não é melhor do que o outro, e deve ser aplicado de acordo à necessidade e à direção do Espírito. O mais importante é que não criemos um estereótipo de evangelismo que envolva somente “pregações rápidas, apelos emotivos e respostas imediatas.” Às vezes o Espírito nos leva a pregar a mensagem do Reino de uma maneira mais ousada, concisa e direta – em que o incrédulo é imediatamente desafiado ao arrependimento e uma vida de entrega para o Reino – mas às vezes é preciso caminhar “sessenta estádios” (11 km), algo que pode durar duas horas, dois dias, dois meses ou dois anos, dependendo do passo da pessoa.

O caminho de Emaús não é uma simples “escola bíblica” no formato acadêmico com o qual estamos acostumados. No caminho de Emaús nosso objetivo principal não é doutrinar, é descortinar Cristo ao longo das Escrituras, desde o Éden até a Cruz, em um contexto de amizade e de partir o pão com as pessoas.

Um dos grandes problemas da contra-cultura evangélica é que muitos de nós fomos ensinados a abandonar “o mundo” e, muitas vezes inconscientemente, pensamos que isso implica em nos afastarmos das “pessoas do mundo.” O resultado é que, depois de alguns anos de Evangelho, quase a totalidade de nossos amigos são evangélicos e somente interagimos com os “publicanos” quando os convidamos para “vir à nossa igreja”. Jesus foi duramente criticado pelos fariseus porque seguiu a via contrária. Ele tinha o hábito “mundano” de comer com os pecadores.

No caminho de Emaús, ao invés de simplesmente convidarmos as pessoas para “irem à Igreja” ouvir uma pregação, temos que estar dispostos a comer com os “publicanos” e desenvolver uma relação de amizade com eles. E à medida que caminhamos com as pessoas, confissões, libertações, curas e conversões ocorrerão naturalmente e ao seu tempo.

Lembremo-nos que boa parte do ministério do Mestre foi na mesa da refeição e foi durante o ato de partir o pão que os olhos dos discípulos de Emaús se abriram e eles puderam enxergar a Cristo (vv. 30-31).

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