Os Valdenses – Reformadores Pré-Reforma

Símbolo e Lema dos Valdenses

Insígnia com o lema dos Valdenses: “Lux Lucet in Tenebris” (A luz que brilha nas trevas, inspirado em João 1:5).

A história dos Valdenses é fascinante e inspiradora. É um exemplo de devoção às Escrituras e de perseverança que serve de inspiração para os cristãos de todas as eras.

Por suas origens distantes, no século XII, os Valdenses são comumente chamados de “a mais antiga entre as Igrejas Evangélicas”. Tudo começa quando Pedro Valdo (c. 1140 – c. 1220), um próspero comerciante da cidade de Lyon (França), resolve abandonar seus negócios e doar todos os seus bens aos pobres – inspirado na passagem neotestamentária que narra o diálogo entre Jesus e o jovem rico (Mateus 19:16-30).

Pedro Valdo foi um reformador em uma era pré-Reforma. Com a ajuda de dois eruditos de seu tempo, os sacerdotes Bernardo Idros e Estevão de Ansa, Valdo traduziu os Evangelhos e diversas outras passagens das Escrituras do latim à língua do povo. Em tempos em que o ensino da Bíblia era uma prática restrita ao clero, Valdo saía pelas ruas pregando o Evangelho. Com as cópias das Escrituras traduzidas em suas mãos, Valdo validava seus ensinamentos, mostrando ao povo que aquilo que pregava estava fundamentado na própria Bíblia. 1 Rapidamente, um grupo de discípulos se formou, a princípio sendo conhecidos como os Pobres de Lyon ou os Pobres de Espírito. Após a morte de Valdo, em 1220, seus seguidores passaram a ser conhecidos como os Valdenses.

Os Valdenses clamavam por uma volta à simplicidade e à santidade características da Igreja neotestamentária. A princípio, eles não eram inimigos da Igreja Romana, mas formavam pequenos grupos dentro da igreja para aqueles que desejavam conhecer as Escrituras mais a fundo e caminhar segundo os passos de Jesus e dos apóstolos. Havia diversos destes movimentos dentro do catolicismo medieval. 2

Apesar de se identificarem como membros da Igreja Católica, 3 os Valdenses viam o poder e a riqueza da Igreja de sua época como algo mundano e corrupto. Eles também entendiam que o comissionamento à obra do ministério não se dava mediante a ordenação clerical, dentro de um contexto institucional, mas mediante a unção e os dons do Espírito Santo. Para os Valdenses, o sacerdócio e a obra do ministério estavam abertos a qualquer cristão. Tanto homens como mulheres tinham a responsabilidade de pregar, batizar e distribuir a Ceia do Senhor. 4 Os Valdenses desenvolveram a consciência profética que distinguia a Comunidade dos Santos, a Igreja Universal, da instituição católica romana comprometida com os poderes deste mundo. Pedro Valdo e seus seguidores criam que a Palavra de Deus e seu Espírito eram ministrados por meio da Igreja formal, mas não exclusivamente dentro dela.

Os Valdenses realizavam estudos bíblicos em suas casas e tinham seus próprios líderes itinerantes 5 que os instruíam e ouviam suas confissões. Eles eram enviados de dois em dois, munidos com as Escrituras na língua do povo, por toda a França, Flandres, Alemanha, Polônia, Boêmia, Áustria e Hungria – uma prática que se iniciou com Pedro Valdo. Seu apelo pela restauração do cristianismo puro e simples confrontava a riqueza, o poder e as superstições da Igreja de sua  época. Como resultado, milhares de pessoas experimentaram um renovo espiritual e firmaram uma aliança com o Cristo vivo, em um período de apostasia e morte espiritual.

Os Valdenses nunca pregaram a ruptura com a Igreja Romana, somente a sua reforma. Mas por “se apropriarem de tarefas que não lhes pertenciam” (pregar e Evangelho sem o consentimento dos bispos) e denunciarem a luxúria e a corrupção do clero, 6 o Sínodo de Verona (1184) os acusou formalmente de se rebelarem contra as autoridades eclesiásticas. 7 Os Valdenses foram anatemizados e excomungados, tornando-se alvos de inúmeras campanhas de extermínio – sendo a maior delas o infame massacre de 1655, onde mais de 1700 valdenses foram mortos pela Inquisição.

Como dito, o surgimento de movimentos como os Valdenses não era algo incomum no século XII, mas a perseverança é a característica que os distingue. Mesmo sob a intensa perseguição que sofreram nas mãos da Inquisição e de monarcas tiranos, por meio de seu compromisso com Cristo e sua Palavra, eles sobreviveram quatro séculos e levaram a tocha do Evangelho do século XII até a Reforma Protestante do século XVI, quando finalmente se mesclaram aos movimentos de reforma na Suíça. Os Valdenses são um dos únicos movimentos de reforma da era medieval a existir até os dias de hoje. 8

BIBLIOGRAFIA

Andrew Miller. Miller’s Church History. Delmarva Publications. Harrington, Delaware. 2014.
Charles P. Schmitt. Floods Upon the Dry Ground. Revival Press. Shippensburg, Pensilvânia. 2001.
Philip Schaff. History of the Christian Church. Delmarva Publications. Harrington, Delaware. 2013.
Christian History Magazine. Edição no. 22, 1989.

© Pão & Vinho - Alguns direitos reservados.
Pode ser republicado, parcial ou integralmente, desde que o conteúdo não seja alterado. É expressamente vedado o uso comercial desta ou qualquer outra obra de propriedade intelectual do autor.
Licença Creative Commons

NOTAS:

  1. Seu estilo de pregação não era a típica homilia dominical pregada pelos curas, mas se assemelhava mais à pregação dos primeiros metodistas nas favelas e nos campos da Inglaterra e dos EUA (sec. XVII).
  2. A ordem monástica dos Franciscanos, fundado por Francisco de Assis (1181 – 1226) foi um destes movimentos, com a diferença que os Valdenses, por sua ênfase no ministério dos leigos, foram perseguidos e excomungados, enquanto os Franciscanos permaneceram na Igreja Romana.
  3. Por séculos, até finalmente se mesclarem à Reforma Protestante, os Valdenses nunca se consideraram como uma entidade à parte da Igreja Católica. Eles intencionalmente evitavam uma atitude sectária e formalmente se identificavam como membros da Igreja, batizando seus filhos de acordo aos costumes católicos e recebendo a Eucaristia pelo menos uma vez ao ano.
  4. Outras crenças dos Valdenses eram: 1) o pacifismo – rejeitavam todo tipo de violência, fosse por parte da Igreja (como nas Cruzadas) ou por parte do Estado; 2) eles se recusavam a fazer juramentos (baseados em sua interpretação de Mateus 5:33-37); 3) condenavam o empréstimo de dinheiro com juros, o que fez com que os políticos da época os considerassem um grupo de rebeldes; 4) rejeitavam a crença do purgatório; 5) criam que a salvação se dava unicamente pelos méritos de Cristo, ainda que considerassem que uma vida de obediência e de santidade era a evidência desta salvação – razão pela qual alguns protestantes  do século XVI consideravam a soteriologia valdense “muito influenciada pelo catolicismo” (Giorgio Bourchard. An Ancient and Undying Light. Christian History Maganize. Edição 22, 1989)
  5. Os barba, que no dialeto provençal significava “tio” e ao mesmo tempo um líder a quem se devia respeito e obediência. Os Valdenses usavam este termo para se referir aos seus pastores em contraste com a prática católica de chamar seus sacerdotes de “pai” (padre). Os barba não possuíam treinamento acadêmico, mas eram treinados na prática, ao acompanhar um outro barba na obra do ministério, após dedicar um tempo ao aprendizado das Escrituras e da cultura de onde iam ministrar. Para não serem pegos pela Inquisição, os barba se disfarçavam de mercadores itinerantes ou peregrinos religiosos e sempre se apresentavam como pessoas comuns – jamais como sacerdotes (muito embora operassem como os sacerdotes “oficiais” da época). Os barba integravam uma rede de presbíteros clandestina que ministrava aos fiéis, organizava reuniões para se discutir estratégias e problemas, e coletava/administrava as ofertas financeiras recebidas dos fiéis. A eficiência de seu sistema fica evidente pelo fato de que, ao longo da história, somente alguns barba foram presos pela Inquisição.
  6. Em um registro policial da época, feito por um inquisidor, os Valdenses são descritos como “homens ignorantes e analfabetos” que se recusaram a obedecer a ordem do arcebispo de Lyon para que deixassem de “propagar erros doutrinários” nas casas e nas igrejas e que, com presunção, se apropriaram de tarefas que não lhes pertenciam e acusaram os bispos de viver em luxúria, cuja punição foi a excomunhão e a expulsão do país (Christian History Magazine. Remembered by their Enemies. Edição 22, 1989).
  7. Importante lembrar que na Idade Média somente o clero podia pregar o Evangelho. O conceito de que a autoridade apostólica é passada de geração a geração por meio da ordenação eclesiástica é chamado de “Sucessão Apostólica”. De acordo com a crença e prática da Igreja Romana, Valdo e seus seguidores, sendo leigos e não ordenados pela Igreja, não eram sucessores dos apóstolos e, portanto, não tinham o direito de pregar.
  8. No dia 22 de junho de 2015, o franciscano papa Francisco se dirigiu a um templo valdense na cidade de Turim (Itália) e proferiu as seguintes palavras: “Por parte da Igreja Católica, eu lhes peço perdão pelas atitudes e os comportamentos não cristãos, até mesmo não humanos que, na história, tivemos contra vocês. Em nome do Senhor Jesus Cristo, perdoem-nos!” (Rádio Vaticano. “Francisco: peço perdão pelas atitudes não cristãs.” Web. Disponível em http://goo.gl/DZMAuW. Acesso em 24 de junho, 2015).
Posted in História da Igreja and tagged , , , , , , .