Semper Reformanda: sopros do Espírito na atualidade

Particularmente, penso que os “ventos de uma nova reforma” que sopram em nossa geração não se tratam de “ventos de doutrina” ou simplesmente mais um modismo. Acredito tratar-se da jornada da Ekklesia rumo aos princípios básicos do Reino (comunhão, intercessão e proclamação) sem o peso ou a distração de construções históricas, emblemas religiosos ou qualquer outra coisa que tenha surgido como um “meio” e acabou se tornando um fim em si mesma (quem lê entenda).

Nas palavras dos Reformadores do século XVI, “Ecclesia semper reformanda est” (A Igreja está sempre se reformando). Reforma, em nossos dias, é o resgate da simplicidade daquele que ingenuamente lança mão da boa semente sem a prentenção de programar ou controlar seu crescimento. É a volta da Comunidade Divina ao seu estágio embriônico, permitindo que ela nasça, cresça, se multiplique e toma sua forma naturalmente, de acordo ao seu DNA divino, sem a interferência de nossos moldes pré-concebidos.

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Sei que não é fácil para muitos entenderem a variedade de terminologias que estão sendo empregadas na blogosfera para expressar a mensagem que o Espírito está soprando sobre a Igreja nos dias atuais. Escrevi este artigo na tentativa de esclarecer alguns conceitos que têm sido discutidos nos últimos anos e também na tentativa de condensar muito daquilo que já escrevi anterioremente.

Alguns termos são usados de forma intercambiável, o que não é incorreto, mas quero “esmiuçar” a ênfase distinta que cada um deles acrescenta à nossa visão de Igreja. Assim, sem a pretensão de dar a última palavra no tocante à certas definições, tentarei explicar algumas delas de acordo com meu entendimento pessoal:

Igreja nos lares

Mudança de imagem: ainda que muitos entendam que o local de reunião de uma igreja, em si, não determina sua identidade, hoje em dia entende-se mais e mais que a porta de entrada para a Igreja deve ser a família (por isso a ênfase nos lares como ponto de encontro da Ekklesia).

A Igreja nos lares não sacraliza as casas como “o átrio sagrado, o santo dos santos e lugar exclusivo das reuniões da Igreja”. 1 Não se trata de uma questão meramente geográfica. A propósito, se a Igreja está fundamentada de forma correta, ela pode até se reunir em auditórios, conforme a necessidade, sem por isso sucumbir ao “complexo de edifício” (quando a identidade da Igreja se funde ao “templo”, não podendo mais ser disassociada dele).

Portanto, a Igreja nos lares não propõe uma mudança geográfica e sim de fundamento. O epicentro da Igreja nos lares é a mesa da comunhão e não o púlpito. Ela está estruturada em torno da família e não em eventos religiosos. O eixo que move a Igreja são as relações pessoais e não programas.

Quando um incrédulo olha para a Igreja, ele deveria ver um grupo de pessoas que convivem, se amam e se servem entre si, e não um programa com música e sermões espetaculares. Os de fora não devem enxergar a Igreja como uma empresa e sim como uma FAMÍLIA, pois o Senhor Jesus disse que a marca de nossa identidade perante o mundo é o amor que deve haver entre nós (Jo 13:35).

A Igreja nos lares denuncia uma Igreja que possui uma mensagem correta, mas uma expressão distorcida, pois não produz comunidade, somente programas.

Igreja simples

Mudança de estrutura: é a eliminação de qualquer bagagem que não seja essencial à nossa ortodoxia – templos, rígidas liturgias, castas clericais, títulos, vestimentas especiais, credenciais acadêmicas como requisito para o ministério, 2 etc.

A Igreja neotestamentária possuia uma certa estrutura sem operar como uma empresa, assim como o corpo humano possui diversos sistemas (digestivo, linfático, nervoso, etc.) sem se tornar um robô. A Igreja simples denuncia uma Igreja que se tornou uma empresa extremamente complexa, burocrática e vagarosa, e propõe um retorno à simplicidade do Evangelho em vários aspectos, principalmente no tocante à liturgia e ao ministério dos santos.

Igreja orgânica

Mudança de sacerdócio: propõe que cada membro, e não somente uma aristocracia espiritual, deve exercer seu sacerdócio.

A Igreja não é uma organização, cujas partes são artificialmente costuradas por estruturas humanamente fabricadas. Ela é um organismo em que, por meio de juntas e medulas bem conectadas (relacionamentos sólidos), os membros funcionam de maneira sinérgica, 3 como os membros de um corpo biológico, e ministram entre si de acordo ao seu dom espiritual (sacerdócio universal), pois “todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” ( Ef. 4:16).

A Igreja orgânica denuncia que muitos dos aparatos institucionais inibem a manifestação da multiforme sabedoria de Deus na Igreja, pois condicionam seus  membros a serem meros expectadores de um evento religioso conduzido por cantores e pregadores profissionais.

Igreja missional

Mudança de prioridades: a Igreja missional é um povo com uma missão. Não gira somente em torno de sua própria existência como instituição (eclesiocentrismo), mas traz em si um enfoque missiológico, chamando seus membros para fora de sua zona de conforto, desafiando-os a olhar ao seu redor e a alcançar sua comunidade por meio da generosidade sacrificial.

Pretende derrubar a falsa dicotomia entre “discipulado versus evangelismo” ou “evangelismo versus ação social”, pois todas estas coisas caminham juntas. Propõe a demolição dos muros da religiosidade que separam os cristãos dos “pecadores”, convocando seus membros a “comerem com os publicanos” e a servirem os necessitados ao seu redor com seu tempo, talentos e finanças.

A Igreja missional dissolve os guetos sagrados e insere a Igreja em seu contexto social. Denuncia a pregação de uma mensagem individualista que se resume em salvar o homem do inferno, mas que não o ensina a manifestar o Reino de Deus entre os pecadores. Aponta para uma Igreja ensimesmada cujos santos gastam a maior parte de seu tempo enfurnados em programas igrejeiros e a maior parte de suas finanças em estruturas eclesiásticas. 4

Conclusão

Penso que estes quatro pontos, balanceados entre si, refletem a Igreja que nosso Senhor Jesus espera que sejamos nos dias atuais: uma Igreja que nasça na intimidade dos lares, que seja simples, orgânica e missional.

Não creio que estas nomenclaturas representem necessariamente movimentos distintos, mas refletem um mover de Deus que está se difundindo nos últimos anos na Igreja de nosso Senhor como um todo, tanto dentro como fora do institucionalismo cristão. Não  existe um movimento que encapsule estas qualidades de forma exclusiva, pois o vento do Espírito sopra onde quer (Jo 3:8). 5 Digo isso porque é importante notar que até mesmo parte da Igreja institucional tem sido impactada por estas ondas de reforma e muitas comunidades de transfundo denominacional têm buscado mudanças no intuito de desenvolver uma expressão mais orgânica de Igreja. 6

Vejo que, no passado, todas estas coisas vinham sobre o Corpo de Cristo como uma brisa suave e discreta, mas que nos últimos anos têm ganhado mais intensidade. Já posso sentir um vento forte que sopra e que, embora ainda não tenha causado nenhum rebuliço de grandes proporções, já faz ruído e pode ser ouvido por muitos tanto nas casas como nas basílicas. Ao longo da história da Igreja, muitos confundiram o sopro do Espírito com ventos de doutrina, fechando-se ao mover de Deus em suas gerações. De certo, não está sendo diferente em nossos dias. Entretanto,  este ruach de Deus se intensificará mais e mais à medida que o dia da volta de nosso Senhor Jesus se aproxima, adornando a Noiva para seu encontro com seu Noivo.

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NOTAS:

  1. Se há um “argumento teológico” por trás da prática de reunir-se nos lares certamente este argumento não seria o de que as casas são “o único lugar autorizado e bíblico” para as reuniões da Ekklesia, e sim o de que na Nova Aliança já não existem mais locais sagrados e especiais para reuniões, o que torna biblicamente injustificada a prática de se gastar tanto dinheiro na construção e manutenção de uma estrutura física que consome a maior parte dos recursos financeiros da Igreja.
  2. A formação acadêmica não representa necessariamente um problema, desde que se entenda que o que forma um mestre do Reino não é o seu diploma teológico e sim o seu dom natural. Mestres são reconhecidos e estabelecidos na Igreja por naturalmente operarem no dom de ensino, e não pelo reconhecimento de uma instituição terrena. Particularmente, conheço excelentes mestres do Reino que jamais passaram por um instituto bíblico, assim como conheço ótimos mestres que obtiveram formação acadêmica para aprimorarem seu dom. Biblicamente falando, entretanto, a formação acadêmica não deve ser um requisito para a obra do ministério. As heresias não se propagam na Igreja pela falta de treinamento acadêmico, e sim por causa daqueles que operam fora de seu dom (por exemplo, profetas ou evangelistas que se aventuram a ensinar doutrina). Precisamos de eruditos nas linguas originais e em outras áreas teológicas, mas a formação acadêmica não eleva o obreiro a um nível superior aos demais membros do presbitério, pois as Escrituras nos ensinam que nem todos os presbíteros foram chamados a ensinar a Palavra (1 Timóteo 5:17), mas no entanto são presbíteros juntamente com os mestres do Reino. Mestres operam em igualdade e submissão a outros membros do presbitério local (profetas, evangelistas e pastores). A especialização, nestes termos, pode ser conquistada por aqueles que assim desejarem.
  3. Por definição, “sinergia” é a ação simultânea e sincronizada de diversos órgãos ou músculos, na realização de uma função.
  4. Curiosamente, nas Escrituras as pessoas vendiam suas terras para alimentar os pobres da Igreja. Hoje, a Igreja pede dinheiro ao pobre para comprar terras, gastando mais dinheiro com estruturas eclesiásticas do que com os necessitados. Não seria esta uma inversão de prioridades?
  5. Sempre parto do pressuposto de que não existe uma maneira exclusiva de se expressar como Igreja, seja institucionalmente ou nos lares. O que há são maneiras mais simples e ágeis de se organizar, versus maneiras mais complexas e burocráticas.
  6. Assim como tenho consciência de que este mover esteja alcançando a Igreja institucional, sou igualmente consciente dos muitos obstáculos que uma Igreja institucional terá para responder positivamente a este mover, devido à necessária desconstrução de certos paradigmas e sistemas embutidos na tradição herdada por ela.
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